lundi 26 octobre 2009

Os demônios de Nicolette

Ela olhou para o espelho e encontrou o demônio da morte, que sorria enquanto segurava uma foice brilhante e afiada. Nicolette era uma mulher saudável, daquelas que nunca havia pegado uma gripe, por isso sempre acreditava que nenhuma doença a atingiria. O demônio dançava no meio das chamas, dentro do espelho amaldiçoado, fazendo com que a mulher ficasse ainda mais perturbada. No auge de seus 65 anos, ela havia se casado três vezes, mas todos os seus maridos morreram de causas inexplicáveis. Seus cinco filhos também não tiveram muita sorte, pois foram encontrados mortos no meio de uma floresta, há quinze anos atrás.

Nicolette se levantou de sua cama, enquanto ajeitava seu vestido vermelho, e jogou o espelho com violência no chão de madeira, espalhando pedaços de vidro por todos os lados. Ela não queria aceitar a realidade, muito menos queria aceitar sua velhice. Sempre havia sido uma bela mulher, cortejada por todos os homens da cidade, por isso não achava justo que o tempo roubasse sua juventude. Nicolette queria encontrar uma forma de voltar a ser aquela linda garota loira que era motivo de orgulho para os pais. Uma forma estranha surgia como uma fumaça negra, espalhando um aroma forte de enxofre dentro de seu quarto.

Então ela se lembrou rapidamente do dia em que havia expulsado Irina, sua filha mais nova, de sua própria casa. Nicolette nunca gostou do modo como ela se vestia, nem do seu jeito atrapalhado e tímido de andar e conversar. Irina era uma vergonha para sua família, e merecia viver com os mendigos, com os pobres e com os criminosos. Nicolette já estava cansada de tentar educá-la, pois a garota nunca aprendia nada de útil. A fumaça negra agora revelava um aspecto maligno e assombroso, com formas de um ser humano, mas com grandes asas parecidas com de corvos que pousam sobre as lápides de um cemitério.

- Mãe.... mãe.... como pôde fazer isso comigo ? - o demônio sussurrava palavras tão dolorosas que entravam na mente de Nicolette como uma espada que penetra o pescoço de uma criança.

- Não, por favor, minha filha ! Eu não quis fazer isso com você ! Vá embora, por favor ! - a velha mulher retirou um terço de dentro de uma caixa preta e começou a rezar insistentemente.

Então Nicolette percebeu o rosto pálido do demônio, com uma expressão melancólica e doentia, mas ao mesmo tempo transmitia uma certa paz e tranquilidade. A mulher fechou os olhos, náo queria enxergar sua própria filha, condenada a vagar pelo mundo procurando ajuda.

Após dois anos, Nicolette foi internada em um centro psiquiátrico, pois desde aquele dia começou a ver vultos estranhos e ouvir vozes que diziam palavras angustiantes e ameaçadoras. E então nunca mais voltou para sua casa, pois cinco anos depois faleceu de causas desconhecidas. No dia de seu enterro, uma chuva forte molhava seu caixão coberto de rosas vermelhas, enquanto Irina observava de longe sua mãe caminhando lentamente em direção à um lago de fogo.