Quando Kirdis olhou para uma barraca de maçãs que estava mais à sua frente, perto de uma tenda de escravos, sentiu uma vontade enorme de pegar só uma delas. Ninguém iria perceber, e também se tivesse dinheiro poderia voltar lá e pagar o mercador depois. Deu dois passos e acabou esbarrando em uma senhora muito gorda, que exalava um cheiro de cebola nada agradável. Havia muitas pessoas perto da barraca, então Kirdis achou melhor procurar outro lugar que poderia ser mais fácil para roubar algo.
Kirdis era um dos ladrões mais habilidosos de todo o Reino de Girrad, pelo menos ele se considerava o melhor, e ninguém havia aparecido para lhe dizer que não era um bom ladrão.Sua família, depois de muitos anos, se cansou de todos os soldados que apareciam invadindo sua casa quase todos os dias, procurando por Kirdis, por isso resolveram que não queriam mais ele em sua casa. Kirdis não se importou com isso, não precisava deles, não precisava nem mesmo de morar em uma casa. Depois de completar seus quinze anos de vida, já havia conquistado toda a boa reputação entre os mercenários, ladrões, prostitutas, mendigos e toda espécie de pessoas marginalizadas da sociedade.
Seu pai, Kirren, um excelente clérigo do Reino, havia lhe avisado várias vezes : "Kirdis, seu imprestável, não sabe nem mesmo descascar laranjas, vai passar a vida toda como um pequeno rato." Pequeno rato... sim, Kirdis gostava de ser um rato, espreitando no escuro, furtando sacos de moedas de nobres distraídos e bêbados. Não achava isso uma desvantagem, pois seus melhores amigos eram os mercenários. Eles haviam lhe ensinado todos os segredos e artimanhas na arte de roubar, e com isso recebiam alguma parte das jóias ou de itens raros que Kirdis conseguia furtar dentro das casas dos nobres.
O jovem ladrão se aproximou atento de outra barraca, e desta vez percebeu que o dono era um homem de aparência severa, mas ao mesmo tempo mostrava um sorriso muito bem feito. Dentro de alguns cestos, haviam vários objetos exóticos, flautas, vasos de cerâmica pintados à mão, uma harpa, e muitos escudos de madeira de diferentes tamanhos e formatos. Kirdis sentiu que agora seria o momento certo de tentar uma aproximação furtiva e precisa. Olhou atento para cada objeto, e ficou fascinado pela harpa que se destacava facilmente entre os outros itens. Era um belo instrumento musical de ouro, muito bem trabalhado, com detalhes que impressionavam até mesmo os artesãos mais experientes.
- Estou vendo que o jovem parece ansioso, deseja algo de especial ? - disse o mercador, se esforçando para mostrar um sorriso.
- Não. Só estou olhando mesmo. Esta barraca suja, digo, todos estes cestos cobertos de poeira... não deve estar conseguindo vender muito, não é ? - disse Kirdis, olhando curioso para o cesto da harpa.
- Escute aqui, rapaz ! - gritou o homem, bastante nervoso - Se veio até aqui para me atrapalhar, pode ir dando o fora daqui. Não preciso de seus conselhos inúteis.
- Calma, não quis ofendê-lo, pelo contrário, vejo que o senhor precisa de ajuda. Sou muito bom em limpezas, já trabalhei na taberna Anão Errante, e inclusive sou filho de Kirren, o clérigo. - Kirdis respondeu com um ar de orgulho.
- Está me dizendo que é filho daquele clérigo bêbado, que sempre aparece na praça assustando as crianças ? Agora percebo porque é assim... tão magro e fraco. Mas tudo bem, não vou lhe pagar um centavo, se quer mesmo me ajudar, terá de provar seu valor. - o homem disse com a voz mais firme, e erguendo as sombrancelhas.
No dia seguinte, Kirdis retornou até a barraca do homem. Desceu rapidamente de sua mula, ajeitando o cinturão de couro que apertava sua calça. Aceitou a proposta do vendedor, assim seria mais fácil de tentar roubá-lo. Olhou espantado para dezenas de objetos estranhos que se espalhavam no chão, e então perguntou ao homem :
- Por que alguém iria querer comprar um par de botas velhas e mal cuidadas ?
O homem parecia cada vez mais irritado, mas acabou respondendo friamente :
- Estas botas, elas eram de Gneriol, o rei dos tritões. São muito raras, rapaz. Você ainda tem muito o que aprender.
Kirdis sentou-se ao lado de um pequeno baú de madeira que estava aberto, perto de dois cestos de palha, repletos de poeira, e então olhou fascinado para alguns objetos, que pareciam ser bastante valiosos. Depois de ter limpado um dos cestos com uma grande escova velha, disse ao homem :
- Agora sim, estão ficando bem limpos. Qual o seu nome ?
- Por que quer saber meu nome ?
- Se estou trabalhando para você, tenho de saber como costumam lhe chamar, não acha ?
- Tem razão. Me chamam de quebra-ossos. - disse o homem, mostrando os dentes amarelos cobertos de restos de comida.
O homem pegou uma pequena caixa de madeira que estava atrás de um barril. Sua tampa possuía símbolos estranhos, como caveiras, monstros, o homem abriu a caixa e mostrou a Kirdis muitos pedaços de carne seca, apodrecida.
- Está vendo tudo isto ? É minha pequena coleção.
Kirdis olhou com atenção e percebeu que na verdade eram línguas, de diferentes tamanhos. Pareciam também ser de várias raças, então o jovem ladrão arriscou dizer algo :
- Parabéns ! Fico orgulhoso em saber que trabalho para um açougueiro.
O homem retirou um facão enorme que estava dentro de um barril, e o mostrou a Kirdis, dizendo :
- Você não iria querer fazer parte da minha coleção, não é ?
O jovem se esforçou para ficar em silêncio, não poderia dizer qualquer bobagem em uma hora destas. Pegou a escova velha e continuou limpando os cestos vazios. O homem sentou-se ao lado de Kirdis, enquanto o observava trabalhando, e finalmente disse :
- Rapaz, trabalha muito bem. Se continuar assim durante mais duas semanas, poderá ganhar umas boas moedas de prata.
samedi 19 décembre 2009
lundi 26 octobre 2009
Os demônios de Nicolette
Ela olhou para o espelho e encontrou o demônio da morte, que sorria enquanto segurava uma foice brilhante e afiada. Nicolette era uma mulher saudável, daquelas que nunca havia pegado uma gripe, por isso sempre acreditava que nenhuma doença a atingiria. O demônio dançava no meio das chamas, dentro do espelho amaldiçoado, fazendo com que a mulher ficasse ainda mais perturbada. No auge de seus 65 anos, ela havia se casado três vezes, mas todos os seus maridos morreram de causas inexplicáveis. Seus cinco filhos também não tiveram muita sorte, pois foram encontrados mortos no meio de uma floresta, há quinze anos atrás.
Nicolette se levantou de sua cama, enquanto ajeitava seu vestido vermelho, e jogou o espelho com violência no chão de madeira, espalhando pedaços de vidro por todos os lados. Ela não queria aceitar a realidade, muito menos queria aceitar sua velhice. Sempre havia sido uma bela mulher, cortejada por todos os homens da cidade, por isso não achava justo que o tempo roubasse sua juventude. Nicolette queria encontrar uma forma de voltar a ser aquela linda garota loira que era motivo de orgulho para os pais. Uma forma estranha surgia como uma fumaça negra, espalhando um aroma forte de enxofre dentro de seu quarto.
Então ela se lembrou rapidamente do dia em que havia expulsado Irina, sua filha mais nova, de sua própria casa. Nicolette nunca gostou do modo como ela se vestia, nem do seu jeito atrapalhado e tímido de andar e conversar. Irina era uma vergonha para sua família, e merecia viver com os mendigos, com os pobres e com os criminosos. Nicolette já estava cansada de tentar educá-la, pois a garota nunca aprendia nada de útil. A fumaça negra agora revelava um aspecto maligno e assombroso, com formas de um ser humano, mas com grandes asas parecidas com de corvos que pousam sobre as lápides de um cemitério.
- Mãe.... mãe.... como pôde fazer isso comigo ? - o demônio sussurrava palavras tão dolorosas que entravam na mente de Nicolette como uma espada que penetra o pescoço de uma criança.
- Não, por favor, minha filha ! Eu não quis fazer isso com você ! Vá embora, por favor ! - a velha mulher retirou um terço de dentro de uma caixa preta e começou a rezar insistentemente.
Então Nicolette percebeu o rosto pálido do demônio, com uma expressão melancólica e doentia, mas ao mesmo tempo transmitia uma certa paz e tranquilidade. A mulher fechou os olhos, náo queria enxergar sua própria filha, condenada a vagar pelo mundo procurando ajuda.
Após dois anos, Nicolette foi internada em um centro psiquiátrico, pois desde aquele dia começou a ver vultos estranhos e ouvir vozes que diziam palavras angustiantes e ameaçadoras. E então nunca mais voltou para sua casa, pois cinco anos depois faleceu de causas desconhecidas. No dia de seu enterro, uma chuva forte molhava seu caixão coberto de rosas vermelhas, enquanto Irina observava de longe sua mãe caminhando lentamente em direção à um lago de fogo.
Nicolette se levantou de sua cama, enquanto ajeitava seu vestido vermelho, e jogou o espelho com violência no chão de madeira, espalhando pedaços de vidro por todos os lados. Ela não queria aceitar a realidade, muito menos queria aceitar sua velhice. Sempre havia sido uma bela mulher, cortejada por todos os homens da cidade, por isso não achava justo que o tempo roubasse sua juventude. Nicolette queria encontrar uma forma de voltar a ser aquela linda garota loira que era motivo de orgulho para os pais. Uma forma estranha surgia como uma fumaça negra, espalhando um aroma forte de enxofre dentro de seu quarto.
Então ela se lembrou rapidamente do dia em que havia expulsado Irina, sua filha mais nova, de sua própria casa. Nicolette nunca gostou do modo como ela se vestia, nem do seu jeito atrapalhado e tímido de andar e conversar. Irina era uma vergonha para sua família, e merecia viver com os mendigos, com os pobres e com os criminosos. Nicolette já estava cansada de tentar educá-la, pois a garota nunca aprendia nada de útil. A fumaça negra agora revelava um aspecto maligno e assombroso, com formas de um ser humano, mas com grandes asas parecidas com de corvos que pousam sobre as lápides de um cemitério.
- Mãe.... mãe.... como pôde fazer isso comigo ? - o demônio sussurrava palavras tão dolorosas que entravam na mente de Nicolette como uma espada que penetra o pescoço de uma criança.
- Não, por favor, minha filha ! Eu não quis fazer isso com você ! Vá embora, por favor ! - a velha mulher retirou um terço de dentro de uma caixa preta e começou a rezar insistentemente.
Então Nicolette percebeu o rosto pálido do demônio, com uma expressão melancólica e doentia, mas ao mesmo tempo transmitia uma certa paz e tranquilidade. A mulher fechou os olhos, náo queria enxergar sua própria filha, condenada a vagar pelo mundo procurando ajuda.
Após dois anos, Nicolette foi internada em um centro psiquiátrico, pois desde aquele dia começou a ver vultos estranhos e ouvir vozes que diziam palavras angustiantes e ameaçadoras. E então nunca mais voltou para sua casa, pois cinco anos depois faleceu de causas desconhecidas. No dia de seu enterro, uma chuva forte molhava seu caixão coberto de rosas vermelhas, enquanto Irina observava de longe sua mãe caminhando lentamente em direção à um lago de fogo.
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